terça-feira, 21 de agosto de 2012

Lifeloggers: o registro da nossa história

Mergulhados numa condição que, ao olhar para o alto, admiravam o céu, ao olhar para baixo, observavam a terra, os homens primitivos viveram entre conflitos opostos, desde as primeiras descobertas à busca de sua verdadeira existência, querendo expressar sua origem.
Essa situação muito me fascina, pois vejo que até hoje somos assim. Desde os primórdios, o homem quis deixar a sua marca, contar a sua história. Mesmo quando a comunicação não era falada nem escrita, existindo apenas gestos, o homem era desejoso por se expressar, contar de si e, para tanto, desenhava sua vida cotidiana nas paredes das cavernas. Era um homem superficialmente comum, extraindo sua ignorância de si mesmo. Despontava, porém, em querer empreender a busca, ainda que a duras provas, pois muito lhe custava acariciar o próprio autodesconhecimento. Milhares de anos se passaram, mas, ao homem, descobrir o mundo fazia parte de um jogo ousado. Descobrir-se e ao mesmo tempo revelar-se transformou-o em sua maior busca. Neste contexto, a pintura rupestre dos primitivos cedeu lugar à arte geniosa de homens que, ora esculpindo, pintando, tocando, ora cantando, escrevendo ou dançando, manifestavam sua essência na inspiração de seus momentos como uma forma de contar a história acrescida de emoção, sentimento e cultura. O homem, repleto de criatividade e imaginação, cria a arte por vê-la como um meio de divulgar suas crenças explorando novas formas de enxergar e interpretar o mundo que o rodeava.
Todas estas informações geravam conhecimento e o conhecimento trazia poder. Com o objetivo de alcançar essa posição elevada, o homem, já dominando a fala e a escrita, sentiu necessidade de expandir seus horizontes de busca e transmissão de informações. A mídia impressa ainda não existia e os poucos livros disponíveis eram escritos a mão. Cada exemplar demorava meses para ser preparado; seu preço elevadíssimo era inacessível para a maioria. Os poucos que tinham acesso armazenavam tais conhecimentos como verdadeiros tesouros mentais, transformando-se numa espécie de “HD humano”.
As histórias eram contadas e os conhecimentos, passados de pai para filho, tornando as reflexões do ensino divididas em dois ramos isolados: um de natureza puramente filosófica, elaborado por conceitos éticos, e outro de natureza empírica ou prática, visando preparar a pessoa para a vida. O ato de educar era baseado no “ser”, utilizado para a formação e amadurecimento do homem e a busca de sua consecução completa ou perfeita. Era uma passagem gradual da potência ao ato, da infância até a fase adulta. Este foi maravilhosamente um tempo que buscou a ciência como um fim nobre em si, sem um objetivo específico que, no fim das contas – como vimos ao longo da história – passou muitas vezes a ser mais importante que o próprio ato de conhecer. Nessa época as pessoas eram orientadas a considerar todo o conhecimento científico, não terem vergonha de “aprender com qualquer um” e “não desprezarem os outros” depois de terem alcançado o saber.
A história avança, e, ainda na Idade média, surge o alemão Johannes Gutenberg. Tomo a liberdade de pensar que Gutenberg, desde cedo um árduo leitor (mesmo diante da dificuldade acima descrita de encontrar materiais em sua época), além de criativo e bem sucedido, era, acima de tudo, um sonhador. Tal a lua ora minguante, ora cheia, seu comportamento talvez fosse de um humor burlesco e espontâneo, bem mais intuitivo que propriamente lógico. Gutenberg criou a imprensa e, a partir daí, a forma como as pessoas se comunicavam e obtinham informações mudaria. As palavras escritas agora poderiam se tornar acessíveis à massa, ou seja, a todos que pudessem ler, tornando-as inesquecíveis, anticonvencionais, provocantes. Levando a sede de viver contida nos livros e romances, sede por conhecimento, paixão por novas ideias e informações que surpreenderiam como tudo o que é novo. E até que o novo se torne comum e o comum pareça tão velho que já não sirva mais, o povo permanecerá confuso, mas deslumbrado.
Na realidade, o que é novo parece nos virar a cabeça e seu aspecto ambíguo nos surpreende à medida que o reconhecemos dentro de nós mesmos. É como se ele fosse o espelho que refletirá nossas vontades e desejos, nossa sede por criar em nosso mundo. Se nos focarmos nas maneiras de comunicação, vemos que o novo reaparece diversas vezes ao longo da história. As cartas, a fotografia, o telefone, a televisão e, mais recente (mas nem tanto assim), a internet são exemplos dessas formas.
O interessante é refletir sobre o impacto que as novas tecnologias trouxeram na vontade inata que as pessoas têm de se expressar. Como cito no início, desde os primórdios da humanidade, o homem é desejoso por deixar a sua marca. No entanto, se antes ele buscava meios inventivos geniais para conseguir registrar alguma ideia ou passagem de sua vida, a geração atual faz o mesmo muitas vezes sem ter consciência.
Nomeio essa geração da internet como lifeloggers.
Diariamente, pessoas (e eu me incluo entre elas) gravam acontecimentos vividos. Nas mais diversas redes sociais, damos milhares de “inputs”, criando uma espécie de diário eletrônico, através de fotos, vídeos, posts e blogs. Mediante o uso de nossos laptops ou smartphones, fazemos isso a qualquer hora, em qualquer lugar. Basta querermos. E nós sempre queremos.
Não por acaso, grandes empresas como Google e Facebook, ao identificarem essa necessidade que os lifeloggers têm de se expressar, criaram ferramentas ou adaptaram as existentes a fim de se satisfazê-los. Com o google docs, calendar e google search você tem tudo o que precisa para armazenar conhecimento, pesquisar informações e se lembrar de datas e compromissos importantes; usando a nova Time Line do Facebook, escrever a nossa história diariamente ficou muito mais simples.
Para o homem, a busca por se comunicar, obter conhecimento e passar isto adiante resume-se não somente em promover a melhoria do seu mundo, como também num néctar para aliviar as suas dores, buscando compreensão da existência além de si. Registrar sua história, escrever em blogs e redes sociais, publicar vídeos e expor as próprias ideias são atitudes comuns em nosso dia a dia. Eu, por exemplo, vejo-me a escrever todos os dias algo sobre mim, sobre minha vida ou meu cotidiano. Na oportunidade que tive de conhecer Regis MacKenna, o grande guru de Steve Jobs, surpreendentemente ouvi a mesma coisa: há 50 anos, ele compõe suas ideias e as registra diariamente. Disse-me fazê-lo como uma forma de entender todo seu presente ao observar o passado na intenção de viver o futuro.
Agrada-me acreditar que, no momento que fazemos esse diário eletrônico, estamos criando nossa própria imortalidade. Penso de tal maneira, pois, ao deixarmos a vida, nossa história continuará nas redes sociais, por meio do nosso “ser virtual”. Pessoas poderão ler e reler nossas experiências, matar saudades e deixar mensagens. Vamos guardar para sempre boas lembranças e histórias de nossos amigos. Dependendo da riqueza dessas informações, nossos filhos poderão ultilizá-las como um livro de aprendizado, um guia para basear suas decisões futuras. Com tal atitude, de maneira consciente ou não, influenciaremos gerações.
Concluo esse artigo, sabendo que, em algum lugar do mundo, nesse instante, alguém está escrevendo um texto, gravando um vídeo ou tirando uma foto, com o intuito de publicá-la numa rede social. Exatamente da mesma forma como faziam os homens primitivos com seus desenhos nas cavernas, desejosos, como nós, por contar um pouco da sua história, almejando serem lembrados, comenta- dos, “curtidos”.
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Rodrigo Rocha é diretor de marketing da Amil, onde atua também na parte de Inovação. É cofundador da One Health, unidade de negócio do grupo Amil voltada ao segmento premium. Foi um dos primeiros executivos do Brasil a se integrar à Singularity University, no Vale do Silício, considerada a universidade que cria o futuro. Obteve o MBA em Finanças pelo IBMEC. Contatos: TwitterLinkedIn

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