Um chefe não deve nunca esquecer que seus subordinados são homens e que, além do serviço, têm interesses, cuidados, sentimentos humanos. E é por toda a humanidade deles que um chefe compreensivo deve interessar-se com tato e discrição.
O mais essencial dever do chefe perante os seus subordinados é, no exercício do próprio mandato, reconhecer-lhes o seu valor de homens e tratá-los segundo a sua dignidade de pessoas inteligentes e livres.
O homem, porque é pessoa, não se pertence senão a si próprio e a Deus; não se entregaria a outro homem que pudesse considerá-lo como coisa sua. Seria regressar a uma concepção pagã da autoridade, em virtude da qual o antigo senhor possuía seus escravos pelo mesmo título que suas tropas ou terras.
Primeiramente o serviço, não há dúvida. Mas não é tudo; que aproveitaria ao bem da humanidade uma bela missão, se resultasse em tornar menos homens aqueles que nela devem trabalhar?
A disciplina é um meio e não um fim. Deve ser flexível para ser formativa, permitindo que os homens tomem as suas responsabilidades. Trata-se como homem na medida em que se compreende o porquê dos seus atos.
Da formação cristã, conservou a idéia bela e profunda de que todo o homem é importante, não só como pessoa, como cidadão, mas como indivíduo fraterno.
O homem recusa a servidão mas não lhe repugna o serviço: pelo contrário, encontra aí a satisfação de um instinto natural de fidelidade e de segurança. Mas quer ter a certeza da estima e da confiança daquele que o dirige, e ser por ele tratado como homem.
Brusco ou calmo, aquele que reconhece em cada homem uma individualidade que constitui sua riqueza e seu orgulho, não pode deixar de pôr secretamente nos modos como que a solenidade de um apelo, apelo de homem para homem, espécie de sentimento de profunda e fundamental igualdade, apesar das diferenças e da hierarquia necessárias.
Não se fala aqui daquela igualdade insultante, daquelas palmadinhas na barriga, daquela camaradagem barata que não inspira senão desgosto àquele que se pretende lisonjear. Mas trata-se daquelas nobres relações de homem para homem, de um para outro, um suserano outro vassalo, ligados pelo dever necessário do comando e da obediência. Assim, no mundo do feudalismo, hierarquizado em extremo e pleno de célebres e trágicas obediências, corria o fluxo oculto e vivificante da fraternidade cristã das almas iguais perante Deus, não obstante as desigualdades salutares, universalmente aceites.
Uma palavra imprudente, uma falta de respeito, uma expressão dura ou desdenhosa podem semear hoje um rancor que amanhã se transformará em cólera.
Quanto mais elevado em dignidade está o chefe, tanto mais deve evitar ofender a suscetibilidade dos subordinados, porque a flecha penetra tanto mais profundo quanto de mais alto cai, e se toca o coração pode ser mortal.
A injúria nos lábios do chefe desonra-o e abre na alma do súbito uma ferida incurável.
"Advirto-te de que nunca empregues com teus soldados expressões duras, epítetos vergonhosos, e nunca profiras em presença deles palavras ignóbeis e baixas. Acredita, meu filho, que está é a única maneira boa de fazer respeitar as ordens, torná-las agradáveis, acelerando-lhes a execução, e inspirar aos soldados aquela confiança em seus oficiais que é a mãe de uma sólida disciplina e de triunfos".
"A principal coisa, para mim, é conquistar a amizade do soldado, pois que se o coronel não é amado, ninguém gostará muito de se deixar matar às ordens de alguém que se detesta. Em Wagram, onde a coisa esteve feia, e onde o nosso regimento fez muito, julgais que, se vós não tendes sido como fostes, os artilheiros da guarda haveriam manobrado tão bem?
Eu, meu general, nunca encontrei nenhum coronel que soubesse falar como vós a um soldado; sereis severo, concordo, mas justo; enfim, faláveis a um soldado como se ele fosse da vossa igualha. Há oficiais que falam aos soldados como se fossem iguais a eles, mas isso não adianta nada, segundo creio...
O chefe deve esforçar-se por criar entre si e seus subordinados atmosfera e reações de verdadeira colaboração. O melhor meio para isso não será interessá-los no trabalho que têm de realizar, fazendo-os partilhar na medida em que são capazes do ideal que o anima?
Todos estamos naturalmente persuadidos de que respeitamos a personalidade de nossos colaboradores. Todo o homem com coração procura fazê-lo; mas observar até ao fim este respeito não é tão fácil como se julga. Porque respeitar a personalidade humana de cada um de seus subordinados é falar-lhes com a mesma estima como se tratasse de seus chefes.
Um soldado não se inclina ao saudar o seu superior. Pelo contrário, é seu dever empertigar-se claramente, e o seu gesto decidido simboliza a altivez com que deve servir.
Seria desonrar tal gesto, cheio de confiança e de nobreza, pretender que significasse servilismo ou fraqueza.
Sempre estive convencido de que o superior deve respeitar a personalidade dos seus súbditos; estes nunca realizam, evidentemente, o seu ideal absoluto. No entanto, devemos servir-nos de nossos subordinados tais quais são, utilizando as suas qualidades e até os seus defeitos, que muitas vezes não são senão exageros de qualidades.
Esforcemo-nos por mandar e obedecer com boa disposição; o homem mal humorado e o homem encolerizado são doentes, portanto seres de qualidade momentânea inferior. Sejamos sempre delicados com nossos inferiores; quando se é delicado, elevam-se aqueles a quem nos dirigimos; quando se é grosseiro, rebaixamo-nos a nós próprios. Frente ao superior, a indelicadeza é uma falta contra a disciplina, perante o inferior, é, além do mais, uma covardia.
Só a delicadeza torna suportável a dureza de uma censura.
Falemos sempre com calma - o que não impede de se falar com firmeza; dar ordens, fazer observações em tom muito elevado, perturba os subordinados, impele-os a eles próprios a gritar, atrapalha o serviço.
Por longo tempo os operários, esmagados pelo materialismo, foram vítimas dos progressos de uma técnica sem alma e de um liberalismo pagão que os reduziu à categoria de material humano, por vezes menos considerado que a máquina por eles conduzida. Resultou daí, na alma operária, um complexo de inferioridade que levou aqui e além a reações violentas. É a partir do momento em que um chefe respeita a altivez dos seus homens e os trata verdadeiramente como homens que começa a ter solução a questão social.
Nenhum comentário:
Postar um comentário