A todo o verdadeiro chefe cumpre ser educador, devendo esforçar-se porque surjam do ser humano associado à sua missão todas as possibilidades ocultas que nele estão depositadas e das quais até, muitas vezes, ninguém suspeitava. Pouco a pouco, revelando-lhas, incute-lhe o desejo e a altivez de vir a ser melhor, mais em condições de realizar o que da sua missão se espera.
O verdadeiro chefe não é o que possui uma espécie de talismã para seu uso reservado, é sim um despertador de semelhantes. Sente legítimo prazer em que o mais humilde dos executantes das suas ordens se faça à sua imagem, e que lhe transmita a impressão dum homem livre, criador, altivo. Rejubila, por ver que desenvolveu à sua roda a iniciativa, a lucidez, o espírito de decisão, a franqueza, naqueles que eram ainda há pouco crianças diante da vida. (Bussy-Robin).
Uma das melhores maneiras de ganhar a confiança dum homem consiste em levá-lo a ultrapassar-se a si próprio e muitas vezes em tratá-lo como melhor do que na realidade é.
O chefe educador deverá ver, para além dos defeitos e dos vícios que transparecem, as qualidades profundas de que é necessário o indivíduo tome consciência, para que, satisfeito com a visão das suas riquezas desconhecidas, se aplique a valorizá-las.
O que mais determina um homem a aperfeiçoar-se é sentir-se compreendido e encorajado pelo seu chefe.
Realiza-se sempre com inteligência e coração aquilo por que nos interessamos e em que nos saímos bem. Por força deste princípio, o chefe deve aplicar-se a suscitar o interesse do subordinado pela tarefa de que foi incumbido, e a colocá-lo em condições de a levar a bom termo.
A educação que o chefe dá deve criar no súbdito o amor pelo esforço, o sentido da responsabilidade e o gosto pelo trabalho em comum.
É o gosto do menor esforço que conduz à rotina, quebra o entusiasmo mais generoso, e esteriliza as actividades mais promissoras.
Nada se obtém sem esforço e as coisas não valem senão pelo que custam.
Renunciar ao esforço é renunciar à vida, ao progresso, à fecundidade.
O ser humano não é naturalmente corajoso, e para adquirir o hábito de vencer-se a si próprio e de encontrar na sua vitória uma satisfação compensadora do esforço dispendido, é preciso ter determinado nele uma atitude positiva perante as dificuldades que o esperam, segundo uma das duas fórmulas seguintes: "As dificuldades fizeram-se para serem vencidas" - "As dificuldades não são barreiras que nos detenham, mas trampolins que nos levam a tomar consciência da nossa superioridade, obrigando-nos a vencê-las".
A propósito de educação, Dugas escrevia: "O mestre que tenta instruir sem inspirar o gosto pela instrução é como o ferreiro que bate em ferro frio". A mesma coisa poderia dizer-se dum chefe que pretende prender os homens sem lhes incutir o gosto pelo esforço e pela função que vão desempenhar.
A educação do esforço deve tender também a desenvolver o gosto pelo trabalho bem feito, a preocupação do pormenor bem acabado e o sentido da ordem sem a qual o resto se volve em dispersão e incúria.
Não se trata tanto de impor esforços como de provocá-los habilmente, porque não existe obra de verdadeira e profunda educação senão na medida em que existe adesão e colaboração.
Um dos melhores meios de estimular o esforço dos seus subordinados consiste em fazer sentir a alegria do progresso realizado e mais ainda a satisfação de estar em condições de melhor servir.
O ser humano é complexo. É um campo de batalha de tendências profundas que se corrigem e neutralizam. O papel do chefe, sobretudo quando deseja cumprir o seu dever de educador, consiste em apelar para as tendências generosas que existem no fundo de cada homem, neutralizando assim os instintos da preguiça e do medo.
"Não expulses o herói que está dentro da tua alma", diz Nietzsche ao homem que quer ser digno desse nome. Em todo o ser humano, qualquer que seja, há sempre chama possível, mecha que fumega. Compete ao chefe distribuir as tarefas em que confia ou as restrições que se impõem, de conformidade com o que cada um possui em si de heroísmo latente.
Para desenvolver nos homens o gosto pelo esforço é permitido estimular o amor-próprio. "A falta de amor-próprio e duma sã estima de si mesmo, escreve Kieffer em "Education et Equilibre", quebra a força de ânimo, mata o espírito de iniciativa, cria seres passivos e inertes".
Ao chefe cumpre precaver-se de pedir esforços em desproporção com as possibilidades actuais daqueles que têm de realizá-los. É progressivamente que deve habituar-se os homens a triunfar dos obstáculos cada vez mais difíceis, de modo que não desanimem, mas que, adquirindo confiança nos seus próprios recursos, tomem o gosto de continuar a progredir.
Existe erro grave naquela concepção de progresso que não tem por fim senão proporcionar cada vez mais ao homem fazer cada vez menos; pois que o progresso não é digno senão quando se torna um meio de servir "mais e melhor".
O que diferencia essencialmente o homem do autómato ou do animal, é que o primeiro é dotado de liberdade e portanto de responsabilidade. Despertar o sentido das responsabilidades nos subordinados é, para o chefe, um dos meios mais eficazes de torná-los mais homens.
Quantos homens tomariam mais gosto pelo seu trabalho, se este lhes fosse apresentado como um serviço social do qual se sentissem responsáveis! Quantos homens também aplicariam todas as suas faculdades para obter o resultado que deles se espera, se sentissem que o seu chefe tem confiança neles!
O homem interessa-se tanto mais por um trabalho quanto mais se sente capaz de executá-lo, quanto melhor compreende a sua utilidade, e pode dar ocasião de exercitar a sua inteligência e o seu espírito de iniciativa.
Há duas tendências na necessidade de independência: uma negativa, que consiste em não querer submeter-se a qualquer disciplina; outra positiva, que consiste em querer escolher por si mesmo o melhor meio de chegar ao fim que se marcou. A arte do chefe está, por conseguinte, em levar os seus subordinados a encontrar por si próprios o melhor meio de atingir o fim comum. Sob este aspecto, deve ser um animador e não um ditador.
O homem tem sempre tendência para protestar contra o trabalho que lhe é imposto e sentir-se honrado com o trabalho que se lhe confia.
Um chefe pode proceder de duas maneiras: "despachar" trabalho desagradável e de menor importância para os seus subordinados ou "confiar-lhes" o trabalho que são capazes de fazer. Se o estado de espírito do chefe é bom, facilmente encontrará a fórmula correspondente, por exemplo: "Peco-lhe o favor de tomar conta deste assunto, porque tenho empenho em que seja bem feito". Homens dirigidos desta maneira trabalharão com um sentimento do dever muito diferente do habitual, com um outro aprumo profissional, com um outro prazer no trabalho, não obstante as condições exteriores serem idênticas àquelas em que são tratados doutra maneira.
A ideia de responsabilidade não aumenta senão na medida em que ao mesmo tempo se desenvolve o sentimento da solidariedade por virtude do qual os nossos actos nos seguem e nada do que fazemos é indiferente ao bem do conjunto. A arte do verdadeiro chefe está em saber despertar este sentido da solidariedade em todos os seus subordinados.
O simples facto de trabalhar ao mesmo tempo sob o mesmo tecto não basta para produzir a coesão e o sentido da unidade. Um grupo, qualquer que seja, se não se quer que estiole em esforços estéreis e até contraditórios, deve tornar-se um organismo vivo em que o pensamento de cada um se harmonize com o dos outros, inspirando-se todos no pensamento do chefe maior, e transmitindo-se, diverso em suas modalidades, imutável em seu fundo, até aos escalões mais humildes.
O espírito comunitário é diametralmente oposto ao espírito de concorrência sobre o qual se têm baseado até nossos dias a vida social e todos os métodos de educação e de ensino. O espírito de concorrência contrapõe os interesses particulares e excita os egoísmos. Coloca o interesse geral e o bem comum em segundo plano. Estabelece classes. Opõe. Suscita as lutas sociais e as guerras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário