Há muitos anos, adquiri um hábito no trabalho: toda vez que alguém entra na minha sala e faz a famosa pergunta corporativa "E aí, como estão as coisas?", respondo de bate-pronto: "Tudo conforme o imprevisto".
Quem trabalha com internet há muito tempo, como eu, sabe que nossa carreira de "profissional.com" não é nada previsível. Nem a longo, nem a curto prazo. Tanto que sempre tive inveja daquele clichê dos anúncios de seguro – "Você nunca sabe o dia de amanhã" – porque se eu nem sei como vai ser o meu dia hoje, amanhã já faz parte do universo ainda não mapeado.
Porém, é exatamente essa imprevisiblidade que, com perdão da aliteração, me faz fazer o que faço. Antes do bug do milênio, eu animava banners em GIF e desenhava sites de 640x480 pixels. Hoje, crio vídeos online e ações para redes sociais – duas coisas que nem existiam naquela época. Ou seja, se tudo der certo, daqui a 20 anos estarei fazendo coisas que ainda não existem hoje – com exceção dos GIFs que, assim como as baratas, sobreviverão a tudo.
Outro dia, almoçando com um velho amigo dos bons e lentos tempos da internet discada, nos demos conta de uma coisa: o Flash nunca existiu. Pensa bem: ele nasceu em 1995 e morreu em 2015. Ou seja, durou meros 20 anos. E daqui a 100 anos, ninguém mais vai se lembrar dele.
Portanto, se você viveu a era das animações em Flash (e daqueles loadings infinitos que também já entraram em extinção), aposto que essa é uma constatação inesperada. Mas pior: se você ainda continua vivendo essa era até hoje, sinto muito mas, daqui a pouco, você também será uma contratação inesperada.
Pois me perdoe o MC Bin Laden, mas o explosivo refrão do seu funk "Tá tranquilo, tá favorável" não faz o menor sentido para o mundo corporativo. Muito pelo contrário: quanto mais intranquilo você estiver, mais favorável o mercado estará pra você.
Afinal, como dizia o trecho daquele blues do Muddy Waters – que deu origem ao nome da banda sexagenária que continua lotando estádios até hoje, inclusive recentemente no Brasil –, "pedra que rola não acumula musgo". E se você tá aí tranquilão no trabalho, acumulando musgo corporativo, sinto muito mas... não vai rolar.
Mais do que nunca, está na hora de transformar sua cadeira de trabalho em uma carteira de colégio. De esquecer tudo que você sabe sobre digital e começar a estudar de novo. Porque o desktop deixou de ser top faz tempo, e o mobile é o novo tsunami que vai inundar todos os meios de comunicação existentes – e que já está mudando (de novo) a forma como as pessoas se relacionam com os produtos e serviços (reparem bem que eu disse "pessoas" e não "consumidores" – ou, pior ainda, "internautas").
Então, faça no trabalho o mesmo que você faz em casa: use o celular pra te acordar. Porque, ao contrário das baratas e dos GIFs, você nunca sabe o dia de amanhã.
Fonte: Eco Moliterno