Eles só precisam estudar - o resto é por conta do Ismart, projeto social que financia todo o estudo de jovens talentos de baixa renda em caros colégios particulares e faculdades de excelência do país.
Antes mesmo de o sol nascer, a jovem já estava de pé para iniciar sua rotina diária de estudos que findava com o seu retorno apenas às oito da noite. A puxada preparação tinha um objetivo definido: passar no processo seletivo do ensino médio do Colégio Bandeirantes - uma das escolas particulares mais tradicionais da capital paulista, com mensalidades acima de R$ 2 mil e que, continuadamente, aparecia entre as de maior índice de aprovação nas universidades mais concorridas. O resultado positivo representaria um custeio integral da escola paga pelo projeto Ismart, uma iniciativa privada de apoio a jovens talentos acadêmicos oriundos de escolas públicas e de baixa renda.
Hoje, aos 17 anos, Stephani relembra essa trajetória. “Meus pais completaram o Ensino Médio já adultos, mas sempre estiveram conscientes, mesmo que lhes tenham faltado oportunidades, de como são importantes os estudos. A conquista de ser aprovada depois de tanto esforço me isentou de continuar em duas escolas: eu era oficialmente aluna do Band”, conta com alívio.
Para ela, a inserção em uma realidade social completamente diferente da que estava acostumada foi apenas mais um desafio que precisou enfrentar. Vinda de família de baixa renda, onde comprar roupas novas e ir ao mercado eram ações limitadas, a adolescente revela que nem sempre havia dinheiro para o material escolar ou uniforme. “Nossa vida era bem instável e quando um dos meus pais ficava desempregado a situação em casa era um caos ainda maior”, completa. Nada que tenha atrapalhado o seu desempenho nos estudos e seu convívio com os colegas. Stephani esteve na turma dos alunos com as notas mais altas, com destaque e reconhecimento do colégio, principalmente no quesito redação. No final de 2013, ela fez o vestibular para o curso de Direito e ninguém duvida de onde ela ainda pode chegar.
Administradora do presente
Maira Silva, hoje com 24 anos, possui uma história semelhante à Stephani, mas está em um estágio diferente. Também vinda de origem mais humilde, ela teve seus estudos do ensino médio financiados, passou na Universidade de São Paulo (USP) e se formou recentemente no curso de Administração.O sonho da universidade se concretizou quando, em 2007, cursando o último ano do colégio, Maira foi indicada para fazer a prova de seleção do Ismart. O processo, entretanto, era diferente do que atualmente é adotado pelo instituto: “alunos do colégio participavam do processo seletivo após serem admitidos na universidade”. Porém, por pouco Maira não perdeu a oportunidade. “Quase não participei, pois não sabia onde ficava o local e como chegar, mas consegui carona”, comenta. Após algumas etapas e aprovada no vestibular da USP, ela era a mais nova bolsista da instituição.
Apesar de a universidade ser gratuita, a estudante recebia uma ajuda de custo que permitia se dedicar mais aos estudos e, segunda ela, o apoio financeiro foi um grande diferencial. “O Ismart me deu muita orientação, troca de experiências com outros bolsistas, o que me ajudou a focar nos estudos e buscar a excelência sempre”, comenta e garante que sem esse apoio não teria conseguido fazer cursos de idiomas e intercâmbio.
Quando Maira estava prestes a concluir o ensino superior, recebeu um e-mail informando que seria nomeada à melhor aluna de sua turma. Para a estudante, a emoção de receber aquele reconhecimento de uma das faculdades mais prestigiadas do país foi imensurável. “Fiquei pensando no quanto essa conquista significava para alguém que considerava o fato de cursar uma faculdade já uma grande conquista”, diz. Hoje, a jovem administradora participa de um programa de trainee em uma grande multinacional e espera ter uma carreira executiva de sucesso.
Um olhar ao talento
A história de Stephanie e de Maira são apenas duas entre os mais de 1.300 alunos que o projeto Ismart já atendeu desde 1999, dando total suporte para crianças de baixa renda com talento para se dedicarem exclusivamente aos estudos.Vindos de uma experiência em distribuição de bolsas para faculdades no exterior, os mantenedores identificaram que jovens de baixa renda não apareciam nem mesmo para o processo seletivo. “Eles nem sabiam dessas oportunidades, pois não transpunham as barreiras dos vestibulares nas faculdades de excelência, principalmente porque vinham de uma educação básica com um ensino mais deficitário,” explica Inês França, Gerente de Projetos do Instituto, em São Paulo.
Ao selecionar os alunos para suas bolsas de estudos, o Ismart acredita estar investindo no futuro do país, garantindo profissionais cada vez melhores e ajudando para que grandes talentos não se percam ante as dificuldades socioeconômicas. Inês afirma que os jovens bolsistas se inserem no mercado de trabalho em posições diferenciadas das que poderiam estar “como que predetermindadas para eles, por virem de baixa renda”. Carlos Lordelo, diretor de comunicação do Ismart completa: “a gente tem depoimentos de empregadores dizendo que esse aluno traz um perfil interessante porque ele se supera, ele é movido a desafios. Ele dá conta porque agarra aquela oportunidade para ascender, para dar um salto na vida”.
Ter a iniciativa privada envolvida com a educação e em busca de talentos que muitas vezes não aparecem por falta de oportunidade não é uma ação exclusiva do Ismart. Há uma preocupação de diversas instituições para, através do ensino, contribuir com a transformação social e o combate às desigualdades. A Fundação Bradesco é um grande exemplo nesse sentido. Desde 1956, ela oferece educação gratuita e atua como multiplicadora das melhores práticas pedagógico-educacionais junto à população menos favorecida em todos os estados do Brasil. Apenas em 2012, mais de 111 mil pessoas participaram dos programas oferecidos pela Fundação.
Além das grandes instituições que apoiam a educação de jovens e adultos que não podem ter acesso à educação qualificada, é preciso destacar as iniciativas mais pontuais de empresas privadas. Dentro de suas comunidades, elas incentivam que seus funcionários voltem a estudar, como é o caso da FG Empreendimentos, construtora catarinense sediada em Balneário Camboriú, que está disposta a elevar a escolaridade de seus colaboradores. A empresa implantou uma política de incentivo à educação, propondo o pagamento de horas extras aos trabalhadores que registram 75% de presença nas aulas. O objetivo da ação, realizada em conjunto com o SESI, é garantir que 80% da equipe tenha a escolaridade básica completa até 2015. As horas em sala de aula são consideradas como horas de trabalho.
"Diante do crescimento da economia e da busca por inovação tecnológica, há uma demanda por força de trabalho mais qualificada. Exercemos a responsabilidade social oportunizando aos colaboradores e à comunidade o acesso ao programa de escolarização", fala a gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional da FG Empreendimentos, Daiane Gorges.
O Grupo Cometa, rede de concessionárias que atua em cinco estados brasileiros, é outra organização que chama a atenção pelo comprometimento com a educação. Todos os 1.200 funcionários que leem um livro por mês – e entregam uma resenha – recebem o 14° e até o 15º salário no fim do ano. Há bibliotecas em todas as lojas e existem diversos projetos sociais do Grupo que vão desde a alfabetização de adultos, sessões de filmes para crianças moradoras de cidades em que o cinema mais próximo ultrapassa mil quilômetros a um projeto audacioso chamado de Universidade Cometa.
“A ideia não é dar o peixe, mas, sim, ensinar a pescar. Esse é o nosso lema. Isso é uma maneira de incentivá-los para que leiam e estejam sempre se atualizando. É uma formação pessoal e profissional muito boa que tem dado ótimos resultados. Isso ajudou os nossos colaboradores a crescerem muito. Só para você ter uma ideia, 99% dos nossos gerentes começaram de baixo, são ‘prata da casa’, e foram desenvolvendo suas habilidades”, ressalta Francis Maris Cruz, presidente do Grupo.
Dedicação e sonhos
Em 2003, quando Cristovam Buarque assumiu o cargo de Ministro da Educação no primeiro mandato do Governo Lula, ele baseou seu discurso na necessidade de se combater implacavelmente o analfabetismo. Com passos curtos diminuímos as estatísticas que assustadoramente ultrapassavam a casa dos 10%, mas deve-se reconhecer que nem todo o mérito está no trabalho dos nossos governantes.Ao que parece, a junção cada vez maior das palavras-chave “oportunidade”, dada pela iniciativa pública ou privada, e “dedicação”, empenhada por aqueles que desejam se desenvolver, pode ser o triunfo decisivo para um crescimento no Brasil. “Os resultados nem sempre vêm imediatamente, mas, quando vêm, a vitória é maior justamente porque exigiu força de vontade e insistência”, destaca a estudante Stephani.
O futuro de alunos como Maira e Stephani, que foram resgatados das armadilhas de uma sociedade comandada por dinheiro e poder, guarda ainda mais surpresas e empecilhos, porém, existem provas de que os sonhos dessas jovens não são os únicos: todos têm dentro de si a vontade de crescer.
“Tenho consciência de que o futuro que imagino, embora seja maravilhoso na minha cabeça, não será na realidade. Haverá novos problemas, novos desafios, novos desesperos e sofrimentos… Mas eu continuo sonhando, porque é isso que me mantém de pé, com um motivo pelo qual continuar lutando”, conclui, sem sombra de dúvidas, a futura estudante do curso de Direito em alguma universidade de excelência.
*Matéria publicada originalmente na Revista Administradores edição número 24 (janeiro/fevereiro 2014).
Fonte: Lívia Maria em http://www.administradores.com.br
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