OS FATOS
Muito provavelmente uma das maiores insatisfações
existentes no campo das chamadas competências gerenciais está situada no
processo de delegação.
São inúmeras as queixas que tenho constatado nos
trabalhos que realizo em diferentes níveis hierárquicos das mais variadas
organizações. As insatisfações são provenientes de profissionais com posições
de Direção, até supervisores de primeiro nível, passando por gerências
intermediárias.
A inexistência de processos de delegação
consistentes e voltados para a motivação, desenvolvimento e crescimento pessoal
e profissional, parecem merecer uma
atenção especial por parte das lideranças.
Relaciono,
abaixo, as lamúrias que tem dado mais “IBOPE”, nas conversas que tenho tido com
supervisores, gerentes e mesmo diretores de empresas.
ü “Meu
chefe quer que eu faça todas as coisas exatamente iguais, da forma como ele
faz. Isso me deixa muito chateado e irritado.. Afinal das contas, cada um tem o
seu jeito de realizar o trabalho, desde que não haja prejuízo para
os resultados finais”.
ü “O
meu chefe não delega absolutamente nada. Ele é um tremendo centralizador. Tudo
depende dele. Por isso estou completamente desmotivado. O meu pavio está quase
apagando. Ele está sempre está querendo saber de detalhes pouco relevantes nos
trabalhos que realizo. Não desgruda do meu pé”.
ü “O
meu chefe sempre tem que incluir algum toque pessoal no meu trabalho. Outro
dia, numa carta que redigi para um cliente, ele alterou “prezado” para “estimado”
e “atenciosamente”, para “cordialmente”.
Não
agüento mais!!!. Isto é completamente desestimulante.
Para
justificar estes comportamentos, ele se auto-intitula de perfeccionista. Mas na
realidade é um baita de um pentelho. Acha que só ele faz tudo certo e perfeito”
ü”Como
é que eu posso aprender, se nunca tenha oportunidade de fazer? Me diga uma
coisa: como alguém pode aprender a nadar sem entrar na água? Até hoje não tive
conhecimento de um curso de natação por correspondência. Já consultei inclusive
a INTERNET e não encontrei nada. Caso existisse, o professor por
correspondência chegaria a um momento que teria que lhe dizer o seguinte: vá
pra água”
Você
já disse, ou ouviu, alguma coisa semelhante às descritas acima?
EXAME
DE CONSCIÊNCIA.
Paralelamente
a esses comentários, gostaria que o leitor pensasse a respeito da seguinte
situação:
“Com
base na sua vida real, imagine você sentado no seu “carro” no lugar conhecido
como “carona”. Pense que o motorista é a
sua mulher/marido, filho, ou um amigo
muito próximo, com quem você tem liberdade de expressar suas opiniões e
sentimentos.
Faça
agora um exame de consciência sobre como você se comporta, tanto do ponto de
vista de reações físicas como psicológicas, quando alguém está dirigindo o
“seu” carro.
São
dois os conjuntos de perguntas que apresento para você refletir:
Primeiro
conjunto:
Você
quer que o motorista dirija exatamente igual como você dirige?
Você
acha que dirija melhor?
Você
sente-se inseguro, tenso ou ansioso?
Você
sente uma enorme vontade, quase incontrolável, de “assumir a direção”?
Você
dá seguidas “sugestões” e “alertas” ao motorista sobre como conduzir o veículo?
Como é o seu timbre de voz?
Você
chama à atenção do motorista para que ele tenha cuidado com o carro que vem
trafegando em sentido contrário ao seu?
Você
“freia”, pressionando o pé direito no assoalho do carro, quando o sinal
vermelho aparece repentinamente?
Você
tem vontade de chegar logo no destino?
Segundo
conjunto:
Você
não está nem um pouco incomodado com a maneira como o motorista vem dirigindo o
“seu” carro? (em velocidade dentro do limite permitido)
Você
acredita na capacidade dele dirigir?
Você
está relaxado, tranqüilo e sereno?
Você
conversa normalmente sobre os mais variados assuntos?
Você
realmente “esquece” que se encontra no “seu” carro?
Você
não se incomoda nenhum pouco se ele tem alguns hábitos, que não sejam de risco,
diferentes dos seus? (exemplos: não puxar o freio de mão quando está em
ladeira; ficar com o pé na embreagem esperando o sinal abrir etc)
Caso
as respostas positivas estejam situadas no primeiro conjunto de perguntas,
provavelmente você é merecedor dos comentários feitos no início.
CAUSAS
DA INDELEGAÇÃO.
- Medo de perder o controle da situação.
- Achar que quando faço, faço melhor e mais rápido.
- Dificuldades em aceitar que os outros façam ao seu modo.
- Falta de confiança nas pessoas com quem trabalha.
- Insegurança pessoal.
- Obsessão em colocar sempre em toque final nos trabalho.
- Confusão entre autonomia e independência.
NÃO
IRRITE: DESENVOLVA PESSOAS DELEGANDO AUTORIDADE.
Tenho
a convicção de que o processo de delegação de autoridade é o instrumento gerencial mais eficaz para
fazer com que as pessoas se desenvolvam. Além do mais, é o mais barato e mais
produtivo processo de treinamento que existe, pois acontece em cenário real e
com isso o líder está executado uma de suas mais nobres funções: criar
herdeiros do seu trono. Só assim, ele poderá ter condições de ser promovido,
tirar férias tranqüilas, já que sabe que
têm pessoas capazes e motivadas a ocuparem o seu atual cargo.
É
oportuno lembrar que a própria palavra “desenvolver” traz na sua origem um dos
princípios da delegação: des (deixar) envolver.
Deixar
de se envolver, é dar e oferecer oportunidades para que os outros façam,
aprendam e cresçam.
Deixar
de se envolver não significa abandonar, estar ausente. Significa estar
presente, sem intromissão. Delegar é ficar disponível e dar total liberdade
para que os colaboradores possam contar com a sua contribuição, caso
necessitem.
Delegar
não é abdicar.
Delegar
consiste em identificar uma parte do seu trabalho que possa ser feito
pelos seus colaboradores, para que você tenha condições de se dedicar a outras
responsabilidades mais inovadoras e desafiantes. Delegar não é dar a autoridade
para os colaboradores fazerem o que já faz parte das atribuições deles. Mas sim
tarefas e atribuições que hoje lhe pertencem na posição de líder.
Treinar,
comunicar as outras pessoas envolvidas naquele trabalho que está sendo delegado
e acompanhar é parte integrante do processo de delegação.
Um
dos fatores mais esquecidos do processo de delegação reside no fato de que a
responsabilidade é algo indelegável. Os verdadeiros líderes sabem que, mesmo
delegando, continuam responsáveis pelo êxito ou insucesso de seus liderados.
Quanto
mais alto no escalão hierárquico da empresa, maior é a responsabilidade. A
responsabilidade sempre flui no sentido ascendente da organização.
O
que se deve delegar é “a autoridade” para que as pessoas possam decidir o que
fazer, sem recorrer necessariamente a palavra final do supervisor. A “autoridade” deveria fluir no sentido
descendente das organizações, para que as pessoas nos diversos níveis
hierárquicos tivessem autonomia em poder fazer as coisas acontecerem.
Autonomia não é independência, agir
isoladamente, sem levar em conta as implicações de seus atos para as outras
pessoas ou unidades da organização. Quando se delega, os líderes sabem que
continuam com a responsabilidade, mas fazem com que os seus colaboradores se
sintam tão responsáveis quanto ele na condução do trabalho, já que será cobrado
por isto.
Finalmente,
delegar significa conversar com os colaborares para identificar as seguintes
questões: motivação, confiança, conhecimento do trabalho a ser delegado,
habilidade para realizar o trabalho e experiência na execução de trabalhos
semelhantes. Não se delega para as pessoas que não tenham as condições
mínimas para executar. Isso é irresponsabilidade.
Uma
indagação final:
O
motorista que você imaginou dirigindo o seu carro tinha carteira de
habilitação? Há quanto tempo? É experiente o suficiente? Foi responsável por
algum acidente de trânsito? Ele gosta de dirigir? Demonstra confiança e
segurança quando dirige? Já conversou a respeito disso com ele? Será que ele
tem o mesmo comportamento quando dirige na sua ausência?
Se
pelas respostas acima, a posição for favorável, recomendo que na próxima
oportunidade relaxe e curta o passeio.
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