sábado, 12 de novembro de 2011

Arte de dirigir


O que os homens mais apreciam no chefe é o poder da arte de dirigir.
Dirigir não é vergar as vontades, ainda menos destruí-las, mas atraí-las para levá-las a aderir aos atos necessários à realização da missão confiada.
O verdadeiro chefe não procura dar ordens para mandar, mas esforça-se por fazer nascer nos subordinados o desejo de uma colaboração voluntária.
Dirigir não é nada. O que é preciso é compreender bem aqueles que se tem a cargo e fazer-se compreender bem por eles. Tornar-se bem compreendido é todo o segredo da vida.
Eu não tenho comandado tal qual como se julga. Eu tenho atraído às minhas idéias aqueles que me rodeiam, o que é muito diferente.
A arte de dirigir consiste em conduzir os homens de maneira a obter deles o melhor rendimento para a causa que se serve, com o mínimo de atritos e o máximo de cooperação.
O subordinado não deve nunca ser considerado como simples máquina de executar ordens, mas como ser humano dotado de inteligência e de liberdade, chamado pelo chefe a colaborar com ele de perto ou de longe, numa missão ou num ideal que os supera e que eles têm de servir em conjunto, cada qual em seu lugar.
Dirigir não consiste em impor a vontade própria a escravos passivos; para o verdadeiro chefe, secundado por um grupo bem selecionado, dirigir é aconselhar e guiar. E a autoridade assim compreendida, longe de opor-se à comunhão de pensamento entre chefes e subordinados, pelo contrário, suscita-a e desenvolve-a. Para os verdadeiros chefes, para aqueles mesmo cuja envergadura de seu cérebro pareceria fazer planar muito acima do vulgar, o isolamento moral não é portanto coisa muito de recear, porque sabem criar confiança à sua volta e desta confiança nascem freqüentemente mais dedicações que abusos.
Atenção à palavra "ordem". Tem duplo sentido e constitui isso um bom achado; descoberta feliz essa. Sublinha uma aproximação curiosa, mas por vezes simbólica. Ordem é a indicação precisa dada a um subordinado do que ele tem de fazer. Ordem, também num sentido muito mais lato, é o arranjo harmonioso dos elementos de um todo para corresponder a uma concepção de conjunto. O chefe não deve dar ordens senão em função de uma ordem geral por ele concebida.
Se o direito de dirigir é um título da autoridade, é o talento de se tornar obedecido que dá a medida do chefe.
Quando se der uma ordem, não se esqueça designar pelo nome aquele que é responsável pela sua execução.
Quanto mais se divide a responsabilidade, mais ela tende para o zero.
O chefe não tem de investigar o que pensam ou desejam seus subordinados para fazer o somatório das suas intenções: mas, por outro lado, deve apelar para a sua experiência, e ter em conta o seu parecer. Mas quando viu com clareza e decidiu, deve dar as suas ordens, sem ter de pedir desculpa a ninguém, e sem mais ter de se preocupar com. saber se isso corresponde ou não à opinião da maioria.
Na escolha que fizer, não é preciso atender à infalibilidade. A realidade é demasiadamente complexa e as nossas inteligências demasiadamente débeis. Deve, no entanto, pensar-se que por sua função e por sua situação, a decisão que tiver tomado será a mais aproximada, a solução suficiente para atuar, solução que todos farão por tornar verdadeira, servindo-a com todas as suas energias e melhorando-a no decorrer da ação.
Toda a ordem dada empenha a responsabilidade daquele que a dá. O chefe digno de dirigir deve possuir a força de caráter necessária para tomar, de boa vontade, essa responsabilidade. É incapaz, se a receia ou indigno, se a enjeita.
 O chefe não tem que implorar obediência; deve pedir com calma. Se possui o direito e o dever de explicar uma ordem, não deve nunca permitir a discussão. Um verdadeiro chefe não se deixa manobrar pelos seus subordinados.
Uma ordem que, na sua forma como na sua aplicação, pareça arbitrária, tirânica, restritiva da liberdade pessoal, arrisca-se a matar o instinto de confiança na própria ordem e a provocar o ressentimento, até mesmo o antagonismo aberto: pelo contrário, deve temperar-se com alguns judiciosos comentários, e obter-se-á uma reação psicológica inteiramente diferente, abrir-se-ão os diques pelos quais se escoará guiada pela razão, a energia que se tiver libertado. Ter-se-á posto em jogo o instinto de conservação, ou mesmo o instinto gregário, se a ordem dada interessa à segurança do grupo. Suponha-se, por exemplo, que determinada ordem vem restringir ou suprimir regalias; provocaria, em primeiro lugar, uma reação hostil. Mas imagine-se que, ao mesmo tempo, o comando anuncia uma epidemia na vizinhança; todas as objeções desaparecem perante o perigo a evitar.
É um fato da experiência que os subordinados realizam tanto melhor a idéia do chefe quanto melhor lhe compreenderam o alcance e a origem. E são tanto mais zelosos no desempenho do cargo quanto mais assimilaram essa idéia e o chefe determinou neles o desejo de realizá-la.
O comandante de companhia diz aos veteranos na véspera do seu licenciamento: "Vós fostes bons soldados até hoje. Sê-lo-eis até no último minuto. Não obstante partirdes cedo, amanhã, deixarei os vossos aposentos em perfeito arranjo; quero poder mostrá-los aos novos como exemplo". Nunca, segundo as notas do graduado, uma caserna foi deixada tão limpa no dia do licenciamento.
Uma decisão cujas razões foram compreendidas e aprovadas será aplicada com plena consciência e obterá a máxima eficácia. Uma decisão aceita contra vontade será destruída, voluntariamente ou não.
As ordens devem ser claras, porque nada enfraquece mais a autoridade do que as ordens equívocas que parece permitirem sempre ao chefe criticar seus subordinados.
Sedes exigentes não esqueçam que vos assiste o direito de sê-lo, tanto mais quanto vossos subordinados tiverem apreendido as razões em que se alicerçam as vossas exigências.
É preciso precaver-se para não ter de repetir muitas vezes a mesma ordem. Por isso, qualquer ordem que se dê deve revestir-se de condições tais que aqueles que têm de executá-la a hajam ouvido e compreendido e possam realizá-la imediatamente.
A hesitação do chefe permite supor que, ao dar uma ordem, pressentiu as dificuldades da execução; desde então o súbdito não pensa em obedecer, espera pacientemente a contra-ordem. Ordem dada com nitidez leva à adesão quase automática.
Qualquer que seja o método de aproximação adotado é preferível proceder afirmativamente a fazê-lo negativamente. A fórmula positiva "cumpre o teu dever" contém unia força psicológica de propulsão muito superior à fórmula negativa: "Não sejas preguiçoso". Do mesmo modo, não há que fazer entrar em jogo uma qualidade negativa, tal como o medo, se pode apelar, com o mesmo objetivo, para uma qualidade positiva, tal como o legítimo amor-próprio ou o desejo de levar a cabo uma tarefa difícil.
Primeiramente, respeito absoluto da forma, o que não implica de modo nenhuma fraqueza. Com efeito, todo o ato do chefe admite dois aspectos: o fundo e a forma.
Se for preciso habituar-se a dar sempre ordens justas, inspiradas pela preocupação superior do bem ao serviço, e não pelo capricho ou fantasia pessoal, torna-se necessário também esforçar-se por atuar sempre com tato e por possuir o jeito.
É muito freqüente ver que ordens justificadas dão lugar, pela forma, a criticas que lhe destroem o efeito.
Perguntar muitas vezes a si próprio: que pensaria eu se fosse mandado ou reprimido assim? Quais seriam as minhas reações interiores?
É preciso que o chefe se imponha a si próprio a obrigação de não dar ordens diretamente, sem passar pela via hierárquica normal.
Quando se começou a aplicar uma ordem urgente, não procureis melhorá-la no curso da execução com modificações intempestivas; as ordens complementares não fariam mais do que atrapalhar os executantes.
Ver com clareza, não é grande coisa. Dar a ordem é a quarta parte, as três quartas partes restantes consistem em fazer executá-la...
Ordem dada, de cuja execução não se cuida, é ordem vã.
Fórmula, a reter e a guardar na vida: Antes das decisões tomadas, discussão; decisão tomada, execução... e triunfo!
Tolerar que uma ordem, seja qual for, não seja executada, é consentir numa abdicação.
A noção de serviço não vem empanar a da amizade nem prejudicá-la. Enriquece-a, dando-lhe sentido. Nos momentos em que a ação não é imediata, em que o chefe tem necessidade de refletir e de rodear-se de pareceres, é natural que conferencie com seus colaboradores, solicite as suas opiniões e provoque discussões. Mas uma vez que julgue estar de posse de todos os elementos da sua decisão e que a tomou não se trata agora de amizade, mas de serviço. Quando foi dada uma ordem, deve ser executada. Foi lançada uma idéia, foram dadas instruções, cada qual deve segui-las, deixando de fazer outra coisa.
Autoritário, Lyautey era, no entanto, o homem menos teimoso, menos reservado, menos rígido que pode imaginar-se. Era mesmo de extraordinária flexibilidade, de uma flexibilidade quase felina. Ouvia com seriedade todos os pareceres. Eliminava só aqueles que julgavam pouco inteligentes. Mas desde que uma observação lhe parecesse fundada, mesmo que estivesse em oposição com os seus próprios modos de ver, tomava-a em consideração. O seu modo de julgar compunha-se metodicamente. Procurava sempre fortalecê-lo. Consideradas, pesadas, postas em ordem toda a coisa então tomava a sua decisão. A partir deste momento, operava-se uma espécie de ruptura. Deixava de ser um homem que prepara uma ação. Era um chefe que manda. Sua vontade tornava-se uma barra de ferro. Não admitia mais discussão, nem atraso, nem moleza. Era tenaz, exigente, trepidante, desconcertante, insaciável. Nada nem ninguém, eram capaz de dobrá-la. Na preparação usava em alto grau a seriedade. Na execução empenhava o máximo da ma vontade. Tal era a doutrina do comando de Lyautey. Tal foi ele próprio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário