sábado, 29 de outubro de 2011

Espírito de justiça do chefe


Ser justo é a primeira  qualidade  que um homem digno desse nome reclama daquele que tem autoridade sobre ele.
Este sentimento de justiça é de tal maneira inata ao coração do homem que qualquer injustiça, mesmo de um chefe amado, o desengana revolta e irrita. Compreenderá que um superior seja exigente, severo até, mas ficará desorientado com uma manobra desleal ou uma ação arbitrária, e se não lhe é possível manifestar este sentimento, guardará no fundo do coração uma ferida secreta, que se volverão mais dias em lamento amargo, em rancor persistente e talvez em ódio implacável.
Ser justo é distribuir elogios e censuras com critério, é saber reconhecer a boa vontade de cada um, é aprofundar as coisas e ter em conta, se for preciso, as causas que dificultam o esforço daquele que fez quanto pôde.
Ser justo é atribuir a quem de direito, mesmo e, sobretudo ao inferior, o mérito de uma idéia inteligente, é saber distribuir lealmente a parte de êxito que cabe a cada um dos colaboradores.
Ser justo é permanecer imparcial em todas as circunstâncias, sem nunca se deixar arrastar por suas simpatias ou suas antipatias, é conciliar a promoção com o valor e as aptidões provadas, e não com o peso das recomendações ou com a habilidade na arte de lisonjear que podia ser arma do candidato.
Ser justo é respeitar a hierarquia por si própria criada, é reforçar a autoridade daqueles que foram colocados à frente de um serviço ou de uma seção, e não intervir no seu raio de ação sem ser por seu intermédio.
Ser justo é reconhecer lealmente o seu erro ou a sua falta, e não os atribuir a outrem, e ainda menos a um subalterno que não fez mais do que executar, o melhor que pôde e soube e com os meios de que dispunha, ordens imprecisas ou incompletas.
Ser justo é usar no exercício da sua missão de uma retidão irrepreensível, que assegura mais o ascendente moral sobre uma coletividade do que o uso de todos os artifícios do comando.
Não existe homem no mundo que, por mais virtuoso que seja, passe por inocente ao espírito de um soberano que, não examinando as coisas por si mesmo, desse ouvido às calúnias.
Os súbditos, como seres não inferiores, têm direito à justiça absoluta; esforcemo-nos por dar-lha. Não procuremos inspirar em nossos subordinados o terror, mas a confiança: que não temam, mas desejem a presença do chefe. Protejamo-los sempre que tenham executado ou julguem ter executado as nossas ordens.
O chefe protegerá sempre os seus súbditos mesmo que as suas ordens lhes mereçam reparos; deve irradiar lealdade, porque é desonra para o chefe condenar seus inferiores à duplicidade de caráter, porque ele próprio não procedeu com retidão.
Tende a certeza de que todo o ser humano é perfectível. Que os vossos juízos sejam sempre provisórios e nunca irrevogáveis. Guardai-vos de nunca "classificar" definitivamente um homem. Nada seria mais injusto nem mais desanimador.
Não há nada que de antemão tanto diminua o esforço que qualquer homem tente fazer para se elevar ou corrigir como o pensamento de um "para que sirvo? estou classificado".
Sede, sobretudo prudentes perante pessoas que não vedes senão raramente. Acautelai-vos da impressão que vos deixaram em encontro fugido, de há muitos anos. É natural que, depois, já se tenham modificado. Não vos fieis unicamente nas vossas recordações.
Que de germes de revolta depostos, durante a guerra, na alma de milhares de soldados, pela arrogância de chefes indignos! O coração do soldado não procurava senão dar-se, admirar: envolvia em verdadeira ternura o chefe que sabia ganhar a sua estima. Mas esta necessidade de admirar, de amar, mutava-se em cólera e em desprezo, diante da injustiça, da covardia ou da dureza. 
Como o rei era o defensor natural do seu povo contra o cupidez dos grandes, assim todo o chefe supremo deve velar por que os "executores" operários, soldados, marinheiros sejam tratados por seus subalternos com justiça e honra. Está aqui a função mais difícil, por enfraquecer a autoridade dos seus colaboradores, mas não deve também tolerar os abusos da autoridade. Questão de tato, de energia e de formação esclarecida dos súbditos.
Se é por demais difícil "manter o que se prometeu", é porque é muito difícil "não prometer senão o que se está certo de poder dar".
Não há nada que melhor conquiste a confiança dos subordinados como a franqueza. Os homens de Ernesti Psichari diziam: "É de tal maneira sincero que se tem vontade de imitá-lo".
A manutenção da disciplina, absolutamente necessária para atingir os fins da ação militar, exige da parte do oficial não só firmeza, mas também um certo respeito das distâncias. Quem desejasse dirigir apenas com amizade e persuasão, renunciando ao prestígio do grau e àquela espécie de poder absoluto que dá o galão, expor-se-ia a graves desilusões: o processo resultaria sem dúvida com os melhores, mas os piores aproveitar-se-iam disso para fugir ao seu dever, e até os melhores não tardariam em apregoar a injustiça e em perder a coragem.

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