As relações humanas entre chefes e subordinados estabelecem-se em pequenos nadas, do dia-a-dia, ao acaso das circunstâncias e das ocasiões: breves conversas sobre saúde, sobretudo se pressente possível fadiga; rápida troca de impressões sobre o serviço, feita com amabilidade; conselhos dados em tom amigo, com um sorriso nos lábios; em todo o caso, palavras que testemunham o vosso interesse pela pessoa que vos fala; pequeno nada que significam humanidade e que contribuem para desanuviar uma atmosfera que os atritos inevitáveis do serviço tendem constantemente a carregar. Permitem muitas vezes que se retomem, calmamente, certas questões espinhosas, se expliquem se façam compreender melhor e aceitar com mais facilidade as decisões e as diretrizes do chefe. Tiram pouco a pouco às exigências do serviço aquele seu quê de duro ou de custoso, permitindo que se atenuem ou se corrijam as suas falhas e os seus remoques talvez muito secos ou muito bruscos. Aqueles pequenos nadam contribuem mais que tudo para criar uma atmosfera de colaboração e de confiança.
Eis o que o Tenente Coronel Bugnet dizia da atitude de Foch que muitas vezes se lhe apresentava como pessoa autoritária e distante: As suas disposições a nosso respeito são tão benignas e favoráveis quanto nós podemos desejá-lo. Facilitam o nosso serviço de tal modo que nenhuma impertinência pode tornar desagradável.
Não faz sentir as distâncias, desde que se observem. É justo; as suas severidades não são imerecidas. Percebe-se que é a razão que o guia, não os sentimentos.
A simpatia e a compreensão mútuas constituem, entre os membros de uma coletividade, o laço que produz a harmonia na ação. Todos os grandes sentimentos podem responder ao apelo da simpatia, e o chefe avisado saberá usá-la e fazer com que reine a harmonia entre os seus subordinados.
Quando falais com alguém, a vossa preocupação vai menos para o que dizeis do que para a compreensão que o vosso interlocutor poderá dar às vossas palavras. Para além das palavras que ele ouve, há a interpretação que as suas reservas, os seus receios, as suas esperanças lhe darão.
Se desejardes que as vossas palavras sejam interpretadas em sentido favorável, impregnai-as de sincero sentimento de simpatia e de benevolência.
Depois de se ter imposto ao respeito e à consideração de seus subordinados pelo seu valor pessoal e pelo exemplo que lhes dá em todas as ocasiões, o chefe conquista-lhes a confiança, interessando-se pelos pormenores da sua vida, ouvindo-os com benevolência, sempre que as regras da disciplina não se oponham; mostrando-lhes que, depois do bem do serviço, o bem-estar da tropa é o principal cuidado do comando.
O subordinado é particularmente susceptível frente ao seu chefe: não lhe consente de bom grado que intervenha nos seus negócios particulares; é todo o "complexo paternal" que de novo está em jogo frente ao chefe, como se de pai se tratasse. Por conseqüência, não é possível ajudar os subordinados, dando-lhes conselhos "de cima para baixo". Tais conselhos ferem-nos e irritam-nos, não podendo segui-los. A única maneira de influenciá-los consiste em o chefe colocar-se "ao lado deles" e tomar parte nas suas próprias experiências, sem espírito de julgar; assim não se trata de uma ingerência na sua vida privada, mas de uma troca de experiências pessoais postas à sua disposição.
O chefe manifestando aos subordinados que os conhece, que se inquieta com o que lhes diz respeito, ganhará facilmente o coração de uns e de outros, e obterá bem mais depressa a sua confiança do que se, a respeito deles, não fosse além, em qualquer circunstância, de uma fria e distante reserva, parecendo, além disso, assim testemunhar a sua pouca fé na sua autoridade.
Saber falar a um soldado de modo a mostrar que se conhece e que se compreende, é um dos meios mais seguros de conquistar a sua confiança, de fazer nascer nele a certeza de que em caso de perigo os seus interesses serão salvaguardados na medida do possível porque foram reconhecidos.
A criatura humana procura avidamente a simpatia compreensiva. Assim as alegrias e as penas do trabalhador não deveriam ser tratadas como fenômenos que a ele apenas dizem respeito, mas como uma ocasião propícia para o chefe da empresa tomar contato com uma alma. O chefe que se aproxima dos seus empregados na hora da provação ou do triunfo penetra mais profundamente no seu coração neste curto instante do que durante longos anos de trabalho de direção. Toda a ocasião servirá a sua causa, pela expressão da sua simpatia: a admissão, a promoção, o nascimento de um filho, a morte de um parente, um aniversário, são para o chefe da empresa ocasiões de manifestar o seu interesse, de estreitar os laços que o unem ao empregado e de provocar por essa razão uma reciprocidade de sentimentos.
Se por vezes existe certo rancor secreto ou violento, do soldado para com o oficial, não é porque este tenha exigido daquele uma ação difícil ou perigosa, mas porque o exigiu em um tom que implica indiferença ou desprezo. Nove vezes sobre dez, um oficial duro no serviço e no campo de batalha, mas que sabe falar com humanidade aos seus soldados, partilha da sua vida, e, como costuma dizer-se, sabe "cair-lhes no goto", é mais amado e mais bem servido do que um chefe menos exigente, mas brutal, frio e desdenhoso.
Não é bom sistema à antipatia responder com antipatia, a mau proceder com mau proceder. Com isso, apenas se conseguirá envenenar as coisas. Imaginai fortemente que estais cheio de benevolência para com o vosso inferior: verá transformar-se dentro em breve. Proceder assim não é veleidade, mas força superior que vence o mal com o bem.
Não imaginais quão superiores e completos é o prazer que se sente em ter em mão a vara do comando, sem que dela nos sirvamos. Os fortes são suaves...
O chefe realista, longe de se lamentar esterilmente das imperfeições de seus súbditos, põe toda a sua aplicação em utilizá-los segundo a capacidade de cada um.
Apesar da excelência das suas intenções e de todos os seus esforços, o chefe não pode ter a ilusão de conquistar todos os seus subordinados; uns ficarão distantes, inertes ou fechados até ao fim; outros não se deixarão ganhar senão em longo prazo. Dias haverá em que se infiltrará o mau espírito, a má vontade e toda a espécie de fraquezas dolorosas que se lhe seguem. Mas se não desanimais e se desinteressadamente vos esforçais por serdes humano com todos e sempre, acabareis por criar uma atmosfera de confiança e de simpatia cuja benéfica influência todos acabará por gozar.
Na vida de negócios, como na vida de família, há infelizmente a tendência para esquecer as qualidades e para ver apenas os defeitos daqueles que nos cercam; na expressão de Shakespeare, gravamos os seus defeitos no bronze, mas as suas virtudes escrevemo-las na água:
Fenômeno muito compreensivo, aliás, porque com o tempo as mais belas qualidades parecem-nos naturais, enquanto que a manifestação repetida de um defeito acaba por cansar a nossa paciência. Este erro de óptica é tanto mais perigoso quanto mais inconsciente; mas pode corrigir-se, fazendo de tempos a tempos o balanço intelectual e moral dos colaboradores; coloquem-se de um lado as qualidades, depois de bem lhe haver tomado o valor, do outro os defeitos, reduzindo-os à sua verdadeira proporção, e apure-se a conta de lucros e perdas. Se o saldo é positivo, amortizem-se os defeitos com um pouco de indulgência e ninguém se prive de um excelente chefe de serviço, com o pretexto de que por vezes é um pouco difícil lidar com ele.
“Há por vezes que reconhecer as fraquezas humanas e curvar-se diante delas de preferência a combatê-las”, dizia Napoleão. Tema-se, sobretudo que, ao suprimir brutalmente os defeitos, não se faça surgir à nossa volta a hipocrisia. Toda a gente conhece a célebre ordem do dia do G. Q. G. Francês, com data de 19 de Maio de 1917: "Os nossos oficiais... hesitam em assinalar os seus chefes as dificuldades de execução por eles verificadas, com receio de serem tidos por espíritos timoratos. Resulta desta tímida abstenção que o Comando Superior mantém por vezes ordens que não teria hesitado em completar ou deferir, se estivesse mais bem informado".
É fato. Há informações que são preciosas para o Comando que um inferior não ousará fornecer ao seu chefe, a não ser que esteja seguro de ser visto com simpatia.
E por isso a referida ordem do dia acrescenta: «O superior deve prestar ao seu subordinado benigno acolhimento, mostrar desejo de ajudá-lo a resolver as dificuldades que o embaraçam apelar para as informações úteis e até provocá-las. A atitude acolhedora do chefe está nas mais nobres tradições do Exército Francês... Quando tal atitude se atenua, tende a provocar um estado desagradável e lamentável; os espíritos exasperados confiam o seu rancor aos indiferentes ou aos incompetentes, criando pouco a pouco uma atmosfera de descontentamento e de inquietação que pode tornar-se perigoso».
Afirmação verdadeira, não só no exército, mas em toda a parte.
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