Toda a outra ciência é prejudicial - diz Montaigne - a quem não possui a ciência da bondade. Gostaria muito mais de me fazer amar do que me fazer temer!
Pode resistir-se a um argumento, pode resistir-se a uma ação boa, mas não se resiste à influência dum coração bondoso... Cria à sua roda como que uma atmosfera em que as vidas mergulham, e se impregnam da mesma substância que ele...
Assim como a sua severidade era inflexível no decurso da ação, do mesmo modo, terminada tal ação, a sua bondade, a sua longanimidade se afirmavam, sempre na sua maneira de tratar e de julgar os indivíduos... Recordo-me ainda de me ter dito: "Um chefe nunca se engana por excesso de bondade" (Serieux, a propósito de Foch).
Existe uma maneira de ser que influi na maneira de ver. Reciprocamente, aqueles que vêem o bem fora de si provam que já o sentiram em si próprios...
Quando nos parece que a bondade deserta do mundo, julguemos antes que desapareceu do nosso coração (G. Duhamel).
A recompensa do capitão não está nas notas do comando, mas no olhar dos seus homens (Lattouy, Le Revolté).
A recompensa do chefe está menos nas felicitações do superior do que na dedicação muda mas total de todos aqueles que, até ao ínfimo escalão, sentem que fazem parte da casa.
Quanto aos grandes chefes, o seu amor tem-me interessado sempre infinitamente menos do que o dos meus subordinados, o único que eu conservo... (Lyautey).
Um coração insensível poderá fazer-se temer... mas, com escravos, fica-se muito mal servido.
É um erro julgar-se que a indulgência e a delicadeza são proibitivos da autoridade.
Conhece-se a expressão de Turenne a um dos seus oficiais: "não falo com dureza a ninguém... mas far-vos-ei cortar a cabeça no momento em que vos recusardes a obedecer". Simples invectiva aliás, num homem cuja autoridade era feita sobretudo de equidade e cuja indulgência e humanidade ficaram proverbiais: "Severo consigo próprio, contava todas as suas infelicidades por faltas; indulgente com os que tinham falhado, fazia passar as faltas deles por infelicidades" (General Weygand, Vida de Turenne)
Que grande poder o do coração! Aquele que não conseguiu conquistar-nos, que hesite em suas ordens e não espere levar-nos longe no caminho da obediência. Mas se alguém se tornou senhor absoluto de nossos corações, é-lhe consentida a audácia nas suas exigências. Tudo pode exigir. Autoridade forte é aquela que se apoia na força do amor. (Theillier de Poncheville)
"O supremo da habilidade está em governar, sem a força", escreve muito justamente Vauvenargues; e Lacordaire dizia mais justamente ainda: "não se pode reinar sobre os homens, quando não se reina nos corações".
Não há comando eficaz sem amor: a vontade imposta só pela força é, sem dúvida, capaz de levar à execução momentânea de determinada tarefa; mas não pode obter aquela "adesão completa das vontades, dos espíritos e dos corações", absolutamente necessária ao chefe para cumprir a sua missão.
Quanto mais elevado se está na hierarquia e quanto mais se sobe, tanto mais necessidade existe de ser bom. (Foch)
Quando La Bruyère quis descrever a verdadeira grandeza de alma, foi de Turenne que traçou o retrato: "A verdadeira grandeza é livre, suave, familiar, popular; deixa-se tocar; não perde nada com ser vista de perto; quanto mais se conhece, mais se admira; inclina-se bondosamente para os seus inferiores e volta sem esforço ao seu natural... Procura-se ao mesmo tempo com liberdade e com comedimento... E nisto está o segredo dos sentimentos muito especiais que inspirou aos homens da sua época nos quais existia um misto de afeto e de admiração".
Referindo-se a um representante do seu país nas colónias francesas, o qual não conseguiu impor-se, Lyautey dizia: "E muito inteligente, mas nunca fará nada, porque lhe falta aquela parcela de amor sem a qual não se realiza nenhuma grande obra humana".
Falando de seus soldados, o oficial diz de bom grado: "os meus homens". Mas nem sempre pensa no valor deste possessivo audacioso. O homem, sendo livre por natureza, é essencialmente aquele que não se deixa possuir senão pelo amor. O oficial que diz "os meus homens" nunca deveria, por conseguinte, pôr nessa expressão qualquer nota de soberania mas sempre de afetuosa solicitude, tal como o pai afirma: os meus filhos, ou o cristão: os meus irmãos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário